sábado, 15 de julho de 2017

A rainha caipira.

A partir de hoje, me dedicarei a publicar, de quando em quando, contos e crônicas escritos por meu pai, Carlos Alberto Gomes, que assina com o pseudônimo de Gomes de Castro.
Estas remanescências que ele transcreveu em um caderno, são momentos bastante curiosos e que vale à pena partilhar.
                                                                                 
             

"Qualquer atividade que nos propusermos realizar, por mais simples que ela seja, nos apresenta determinado grau de dificuldade. Seja lá qual for. Dormir um neto, por exemplo. Não aquele que ainda é bebezinho e ao qual você oferece uma chupeta que, como todo bom ferrenho chuparino, fica horas a sugar. Também não vamos considerá-lo ou compará-lo a uma criança hiperativa, pois não há necessidade de chegar a tanto.              
Mas, foi pensando dessa maneira que tive minha atenção despertada por inúmeras atitudes de meus netos que, anotadas junto a atitudes ou expressões ditas por meus filhos, quando pequenos, formariam um extenso glossário de fatos correlatos.
Busquei então na memória, juntar o máximo possível e quando tive a atenção despertada por estes fatos, comecei anotá-los, a princípio com o título de “coisas de pirralhos”. Dei então início a uma coletânea do que ouvi de meus netos assim como os que recordei ter ouvido de meus filhos. 
Gostaria então de relatar um deles, acontecido há alguns anos atrás, quando meu neto mais velho estava com seis anos e seu irmão, com quatro.              
Em determinado dia, em que meu filho e minha nora precisaram viajar para São Paulo, pediram que eu e minha esposa ficássemos com os garotos. Isto, para nós era muito prazeroso, pois dificilmente nós tínhamos oportunidade de tê-los conosco. Geralmente, quando vinham, o faziam acompanhados dos pais e quando estes se iam, também se iam eles.
No dia seguinte, logo pela manhã, minha esposa já se pôs a fazer um bolo, procurando recheá-lo com guloseimas que os meninos gostavam: chocolate; castanhas; creme...
Durante todo o dia, assim que chegaram, eles brincaram pra valer, de tudo que pudéssemos imaginar. Como moramos em uma chácara de grande dimensão, eles puderam se “soltar” jogando futebol e correndo durante todo o dia. Até aí, a única dificuldade que encontrei foi adquirir fôlego para acompanha-los.
À tarde, quando a avó serviu-lhes café eles se esbaldaram ao comerem o bolo. Continuaram brincando até quase a hora do jantar quando a avó os encaminhou para o banheiro.
Ao anoitecer, após o jantar, assistimos alguns programas de TV e, tendo eles tomado leite e escovado os dentes, minha esposa pediu-me que os fizesse dormir. 
A princípio não gostei muito da ideia, pois não costumo deitar-me muito cedo e, analisando bem, a tarefa não era lá tão fácil assim. Afinal, para mim, essa tarefa cabia à avó e não ao avô.               
Mais de uma vez eu tentei me esquivar, porém ela insistia para que eu me incumbisse da missão, alegando que eu tinha boa capacidade imaginativa e poderia inventar alguma história que os faria dormir. Acabei por me curvar ante sua vontade.              
Fomos para o quarto e ainda a caminho, comecei a forçar a memória a fim de lembrar-me de alguma história que eu ouvira quando criança. 
De repente, ocorreu-me a história do “isqueiro mágico” que eu ouvira quando ainda menino. Apelei então com toda sofreguidão para minha mente e, por fim, comecei a crer que atingia meu objetivo. Não mais precisava apelar para invenção e nem promover a uma verdadeira miscelânea de fatos com a finalidade de forjar uma história na qual eles prestassem atenção. Foi assim que dei início a minha narrativa:              
Certo dia, um soldado voltava da guerra e caminhava pela estrada quando, próximo a um grande carvalho encontrou-se com uma velha toda vestida de preto e usando um avental quadriculado de preto e branco amarrado em sua cintura. Ao vê-lo, ela, toda vergada para frente, se dirigiu a ele dizendo...               
Bem! Por incrível que pareça acabei por lembrar-me da história do isqueiro mágico inteirinha. Só que as coisas se complicaram! Insatisfeitos, e ainda sem sono, eles pediram para que eu contasse outra. De nada valeram as minhas desculpas e tentativas de me escusar.              
Desta feita, não houve outra forma que não apelar verdadeiramente para a minha imaginação e, a miscelânea agora, se fez necessária na junção de minha criatividade com a história da Branca de Neve e os sete anões que, logo percebi terem ficado totalmente fora da história.
Em determinada altura de minha narração, simplesmente a Branca de Neve e os sete anõezinhos já não faziam parte do contexto de minha brilhante e inigualável história.  Eu agora falava sobre um diálogo entre um príncipe e sua mãe, a rainha.              
A certa altura de meu relato, o príncipe, educadamente se dirigia à mãe, com estes dizeres:              
__ Mamãe, - dizia o príncipe à rainha – eu vou viajar e percorrer outros reinos. Preciso conhecer novas pessoas, novos lugares e, quem sabe eu encontre uma bela princesa da qual eu possa me enamorar e até mesmo, me casar com ela. A senhora não acha que eu deva fazer isso?              
A rainha, concordando com o filho, lhe disse - (Sem que eu percebesse, minha fala saiu com termos bem próprios):
__ Vai sim meu fio, vai conhecê outros reinos e outras pessoas. Que Deus te ajude e assim, quem sabe ocê também...              
Nesse momento veio a bomba disparada pelo meu neto:             
 __ Uai, vô! A rainha era caipira?              
Minhas gargalhadas foram tão exageradas que acabaram por levá-los também a rir. Isto acabou por atrair minha mulher que agora, também ria sem sequer saber “do que” e “porque” nós estávamos rindo.              
Lembro-me que em outras ocasiões, como meus netos adoravam ouvir pequenos relatos, principalmente quando o agente fazia suas artes e era pego pelo pai que o castigava, eu lhes contava muitas artes que fiz em criança, narrando sempre na terceira pessoa, exceto, o final, quando o sujeito da façanha era pego. Daí em diante era narrado na primeira pessoa e, assim eu lhes contava o final das minhas histórias. Como no exemplo, abaixo:              
__ Aí, o pai do garoto chegou e sabendo que ele tinha quebrado a vidraça, o pegou pelo braço e, retirando a cinta, me deu uma surra que durante uma semana eu senti as dores dessa sova!              
Então, eles perguntavam:              
__ Uai, vô! Foi o senhor quem quebrou a vidraça? 
Daí, eles riam a valer..."


Gomes de Castro
Contos e Crônicas

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